Nude: autonomia das ‘minas’ em um clique

Não importa se a câmera é de 2 ou 14 megapixels, o que vale é o clique e a imagem que fica congelada. Fotos que acentuam curvas, formas, tamanhos e cores diferentes. Corpos singulares que, muitas vezes, estão presos às amarras dos estereótipos tão nocivos que a sociedade nos impõe. Mais do que um jogo sexual, as fotos nuas ou, para quem preferir, os nudes, podem ser positivas para mulheres que não se sentem confortáveis consigo mesmas ou com o poder de sua sexualidade.

Foto: Manoela Facchin
Foto: Manoela Facchin

Há alguns anos, a radialista Carolina Piccin, 23, desenvolveu bulimia e se sentia mal com seu corpo. Quando começou uma dieta alimentar e, consequentemente, a emagrecer, passou a tirar fotos nuas para enxergar as mudanças que, sim, estavam ali. “Eu tirava fotos no espelho, em nu frontal, para poder comparar as imagens e conseguir ver as diferenças, de alguma forma. Me chateava bastante emagrecer e não conseguir ver as mudanças no meu corpo. Com isso, minha autoestima era bem baixa”, explica.

Com o tempo, os nudes ficaram mais ousados, eróticos e sensuais. “Fui percebendo que eu não era tão horrível quanto imaginava. Eu odiava muito meu corpo. Comecei a ver que ele poderia ser bonito. Por mais que existam coisas que eu ainda não goste, aprendi a lidar e a dar valor ao que eu tenho. Aprendi a dar valor às partes que eu considero bonitas em mim. Acho que essa foi a maior mudança: ter consciência de que todo mundo tem partes bonitas e feias no corpo e que devemos valorizar o que temos de bom, e não nos rebaixar pelo que temos de ruim”, completa.

Recentemente, Carolina participou de um ensaio sensual* com mais duas amigas. O que a radialista pensou que seria difícil, as pessoas e o clima do ambiente se encarregaram de tirar o receio – junto com as roupas: “Fiquei muito tranquila. Continuo tendo problemas com meu corpo, mas só de eu conseguir olhar para essas fotos sem sentir vergonha foi muito importante. Senti que cresci. Consegui me empoderar disso, de achar meu valor de alguma forma. Não é o que me destrói como me destruía antes. Antigamente, todo o problema do mundo estava no fato de eu me achar gorda. Hoje, não tenho mais isso. Continuo tendo opiniões antigas, mas de um jeito novo. Me sinto uma pessoa muito mais livre”.

A radialista, que costuma enviar suas fotos para amigas e pessoas com quem está saindo, não teme os vazamentos. Inclusive, costuma publicar algumas fotos em suas redes sociais, que são protegidas. “O erotismo, para mim, é arte. Não é um produto para prazer. Eu publico porque acho bonito, são fotos bonitas. Você admira, não deseja”, ressalta.

Manda nude (para as amigas)!

Lovelove6 para Nébula
Lovelove6 para Nébula

Na era em que o limite do que é público e privado está distorcido, e as informações se propagam cada vez mais rápido, a prática do revenge porn (pornografia de vingança) se tornou comum – e grave. O número de vítimas de vazamento de fotos ou vídeos íntimos divulgados sem consentimento quadruplicou no Brasil em dois anos. Em 2014, 224 internautas procuraram o serviço de ajuda da SaferNet (organização de defesa dos direitos humanos na internet) para denunciar casos de revenge porn, sendo que 81% deles atingem mulheres. Outro dado alarmante: a cada quatro vítimas, uma é menor de idade.

Um problema que anda de mãos dadas com a pornografia de vingança é o slut shaming, que nada mais é que o ataque ou culpabilização, público ou não, à mulher que expressa sua sexualidade. Além dos xingamentos, as vítimas recebem questionamentos carregados de repreensão: “para quê tirou foto ou filmou se não queria que vazasse?”. Como se a culpa fosse de quem registrou momentos íntimos – muitas vezes, a dois -, e não de quem os vazou sem autorização.

Na tirinha ao lado (clique na imagem para ampliá-la), a ilustradora Gabriela Masson, ou Lovelove6, propõe que os nudes sejam compartilhados não com homens, mas sim entre amigas. Segundo a estudante Luciana Ortiz, 21, essa troca tem a ver com a confiança. “A sua amiga está sujeita a ser exposta na internet como você, simplesmente por ser mulher. Ela sabe como é ter esse ‘medo’. Então, é muito mais confiável mandar para ela do que para um macho, que pode acabar vazando seus nudes. Acho que também é bom para a autoestima, porque homem repara nos seus defeitos. As minas vão te emponderar, esteja você dentro do padrão ou não”, destaca.

A designer Alice Gauto, 21, também acredita que a diferença entre mandar fotos nuas para mulheres e homens está na reação de cada um. Enquanto um homem distribuirá apenas elogios, uma mulher fará a outra acreditar neles. “É como ela vê uma semelhante, é como ela quer se sentir. Ela sabe que quando alguém externaliza o que sente/vê é um prazer enorme, e ela proporciona isso à outra mina, porque vê a beleza e quer falar que a amiga é linda. Receber esse tipo de elogio vindo de uma mina, vivendo em uma sociedade que põe mulheres contra mulheres é empoderador. É falar ‘a gente é foda sim! Você é gostosa, eu sou gostosa e a gente vai falar até todo mundo entender'”, enfatiza.

Além disso, ela observa que homens foram criados para mostrar vantagem para os amigos: “Se qualquer mina manda nude, ele já vai correndo compartilhar com o bando. A mina sabe o que pode significar uma foto dessas e vai cuidar da foto como se fosse dela mesma. Quando uma mina confia em outra a ponto de mandar nude, é porque já virou irmandade”.

Para Bianca Grbski, 19, tirar nudes foi parte de um processo de autoconhecimento, sendo que o apoio de outras mulheres fez a diferença. “Eu não ousava olhar pra mim mesma, pelada, então, jamais. Foi um processo de desconstrução. Cometi o erro de mandar para caras. As reações deles são sempre um lixo; sempre me deixavam mal. Aí, comecei a compreender que eu não estava fazendo aquilo para agradar homem, e sim para aprender a me amar. E quem sempre me ajuda a desconstruir tabus são minhas amigas, porque elas estão na mesma realidade que a minha; sofrem o que eu sofro. Isso me deixa confortável. Para as mulheres, entender e amar o próprio corpo é proibido pela sociedade. Nosso corpo só serve para dar prazer para homem. Quando as mulheres se unem para descobrir, discutir e naturalizar o próprio corpo, é um ato de revolução”, conclui.

*Quer saber mais sobre o ensaio que a Carolina Piccin fez? Então acesse o blog Call Me Ruby Moon e veja mais fotos!

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5 comentários sobre “Nude: autonomia das ‘minas’ em um clique

  1. Que matéria ótima ❤
    Eu acredito muito nesse poder de transmitir autoestima e autoconhecimento do nude,
    ando pensando muito sobre isso. Lidar com a própria imagem deve ser uma descoberta incrível de cada uma ❤

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