Violência doméstica: precisamos meter a colher

– Meu pai bateu na minha mãe!

– Por quê?

– Porque ela fez coisa errada.

Doeu ouvir uma criança, de aproximadamente 5 anos, dizer isso a um coleguinha da mesma idade. Doeu saber que ela, ainda tão inocente, poderá crescer em um lar onde sua mãe sofre violência doméstica e seu pai ensina que está tudo bem em ser agressivo com alguém que comete um erro. Essa mulher, que não conheço, tem nome e rosto. E ela entrou para uma triste estatística: a cada cinco minutos uma mulher é vítima de agressão no Brasil.

Quando escutei essa conversa, procurei alguém que compartilhasse o mesmo olhar assustado que eu, mas não tinha nenhum parente das crianças por perto. Desejei que a mulher em questão tivesse registrado a agressão e não acreditasse que realmente havia feito algo errado. Tentei imaginar o que se passava na mente desse filho que presenciou uma cena violenta. Quis meter a colher, mas estava de mãos atadas. E é exatamente por esse sentimento de impotência que muitos de nós temos, que precisamos falar (ainda mais) sobre violência doméstica.

Divulgada em abril deste ano, a pesquisa “Violência contra a Mulher e as Práticas Institucionais”, da Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, mostrou que 9% das mulheres acreditam que tenham feito algo para “merecer” uma agressão. O número parece baixo, mas é expressivo e alerta para a tentativa de justificar e remediar uma violência que é, sim, de gênero. Afinal, ninguém merece ser violentada.

A violência doméstica se manifesta, principalmente, quando uma das partes não cumpre seu papel de gênero, ou seja, a função que se espera de um homem ou uma mulher dentro da sociedade. Esses papéis são construídos histórico e culturalmente, e o que pode ser percebido é que no nosso contexto essa relação se dá com base na dominação e submissão. Na violência de gênero, o homem sente que tem direitos sobre a mulher e a agressão ocorre quando ela se desvia do que supostamente seria sua função.

O medo assola as vítimas. A culpabilização, o receio de cuidar sozinha dos filhos e a falta de condições financeiras impedem que muitas não denunciem o parceiro, mesmo tendo o respaldo da Lei Maria da Penha. Há, ainda, aquelas que chegam até a delegacia, mas desistem de registrar o Boletim de Ocorrência (BO) ou voltam ao local dias depois para retirar a queixa. É um desgaste emocional muito grande, pois o agressor é alguém com quem as vítimas mantêm ou mantiveram vínculos afetivos: são pais, maridos, namorados, ex-companheiros.

Esse problema também termina em mortes. O Mapa da Violência 2012 revelou que entre 1990 e 2010 cerca de 91 mil mulheres foram assassinadas. Os dados indicam que 68,8% dos casos de feminicídio aconteceram dentro de casa. Em casos de agressão contra mulheres entre 20 e 49 anos, o levantamento apontou que em mais de 65% deles os responsáveis eram parceiros ou ex-parceiros. Hoje, com a Lei do Feminicídio, o assassinato de mulheres em decorrência de violência doméstica ou de discriminação de gênero é crime hediondo, com penas mais duras.

Homens continuam violentando e matando mulheres para que elas reconheçam o seu lugar e aprendam a respeitá-los e obedecê-los. Essa realidade está longe de mudar e o resultado dessas agressões está nas estatísticas e estampado, quase que diariamente, nos noticiários. Está, ainda, no silêncio, no sentimento de culpa e no choro contido das vítimas. Está na lembrança de milhares de crianças.

Por isso, precisamos meter a colher e denunciar, por meio do disque-denúncia 180. Precisamos acolher essas vítimas e dar todo o apoio emocional, psíquico e jurídico. Precisamos mostrar que as erradas não somos nós.

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3 comentários sobre “Violência doméstica: precisamos meter a colher

  1. Vamos falar sobre isso sim!.
    Boa tarde!
    Eu sou monitora em uma creche pública, no meio de bairros onde a cultura e o conhecimento ainda não são tão divulgados, onde as mulheres acreditam que devem ser punidas por estarem erradas, por terem desagradado os maridos.
    Por algum tempo eu fiquei pensando em como eu, educadora, poderia passar meu conhecimento, sobre leis, feminismo e direitos, para essas mulheres.
    A maneira que encontrei, foi plantando educação, respeito, e um pouco de feminismo de forma oral aos meus pequenos, de 3 á 5 anos. De forma escrita, nos cadernos e através de vivências, nas minhas ações, nas brincadeiras onde meninas são iguais á meninos, onde os corpos e falas são respeitados para ambos os sexos.

    Eu gostaria de um mundo onde todas as mulheres pudessem ter seus olhos abertos e tivessem apoio das mulheres próximas á elas.
    Obrigada por esse texto lindo, e continue falando sobre esse assunto.

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