Segundos de felicidade

Despertou-se com o leve toque dos lábios de sua esposa. Abriu os olhos lentamente e sorriu preguiçoso. Ela transitava pelo quarto, apressada para o trabalho. Suspirou lentamente e observou o céu cinzento pela janela. Lá fora, as pessoas andavam com pressa, os carros formavam filas enormes, os comerciantes abriam suas lojas, os ônibus circulavam trazendo e levando passageiros… A vida agitada de sempre. A vida que inúmeras pessoas levavam. Menos ele.

– Estou saindo! O café está na mesa. – A mulher de cabelos negros e longos disse e depositou um beijo molhado em sua bochecha.

Não respondeu. Apenas a observou saindo pela porta e sentiu o beijo ainda estalando. Enquanto ela saía para trabalhar todos os dias, ele ficava trancado no apartamento pequeno e velho. A única companhia que tinha era a dos móveis de mogno herdados da avó.

Levantou-se e andou pelo quarto à procura do maço de cigarros. Encontrou-o escondido no bolso da calça, mas só havia o maço, cigarro não tinha. Arremessou a peça no outro canto do cômodo, irritado. Foi até à cozinha em passos lentos, olhou a garrafa de café sobre a mesa pequena e sentiu uma enorme vontade de destruí-la, mas não o fez. Ao invés disso, pegou um copo e serviu-se da bebida quente e negra. Tomou um gole, mas cuspiu logo em seguida. Estava amarga e não havia nada para adoçá-la. Sua vida era assim, amarga como o café. Sentia-se medíocre. Não tinha emprego nem um apartamento maior e melhor. Não tinha dinheiro para comprar açúcar nem cigarro. Sua esposa trabalhava muito e ganhava pouco. Ela era inteligente, amável e graciosa. E ele, o que era?

A raiva e a frustração borbulhavam. Apertou o copo com força, que se quebrou. O café misturou-se com o sangue que jorrava de sua mão. Não sentiu dor, até sentiu certo prazer em se machucar. Podia descontar seus problemas em si mesmo. Era ele quem precisava sentir a dor, que agia como uma espécie de castigo. Castigo por ser uma pessoa que atraía a pena, não só de sua mulher, mas de todos a sua volta.

Saiu da cozinha e voltou ao quarto. Abriu a janela e respirou o ar puro da manhã. Inclinou o corpo para frente e tirou os pés do chão. O barulho ensurdecedor da cidade, de repente, desapareceu e ele estava voando. Toda a felicidade que não aparecera naqueles anos, aparecera naqueles segundos e ele estava livre. Livre de todo o fracasso e de toda mágoa. Livre de si mesmo.

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