Divã

Estava sentada na desconfortável cadeira da sala de espera do consultório de psicologia. A secretária apoiava a cabeça em sua mão, parecendo extremamente entediada e cansada. “Deve ser um porre trabalhar aqui”, pensou. Vez ou outra, o telefone tocava e ela fazia anotações em sua agenda, nada mais. O cômodo estava vazio e o único barulho provinha do tique-taque do relógio pregado na parede. Tomou um leve susto quando a porta se abriu e um senhor grisalho apareceu. “Entre, por favor”, disse ele. Levantou-se imediatamente e entrou na espaçosa sala. Havia um divã verde musgo, uma poltrona preta, uma mesa de canto e uma estante repleta de livros. O ambiente era confortável, talvez para aliviar a tensão do que é ter alguém invadindo sua mente.

Como não sabia o que fazer, optou-se por apenas sentar no divã. Seus músculos estavam rijos e mordiscava seus lábios a cada segundo, deixando transparecer o seu nervosismo. Não sabia o motivo que a levara a pegar o telefone e marcar uma consulta. Fora uma atitude impulsiva e, agora, tinha que lidar com aquela situação extremamente incômoda. O psicólogo sentou-se em sua poltrona, pegou seu bloco de anotações e a encarou  por trás de seus óculos de aros de tartaruga. Não fez nenhuma pergunta e arqueou as sobrancelhas quando não obteve nenhuma atitude vinda da mulher. O que ele esperava, afinal? Que ela simplesmente… falasse? “Uhum”, pigarreou, “O que a senhora veio procurar aqui?”.

Aquelas palavras saíram de sua boca e atingiram-na como um tapa na cara. Seus olhos se arregalaram e sua garganta ficou seca, pois não sabia a resposta para aquela pergunta. Trouxe à memória os dias em que se sentia extremamente bem. Ficava agitada e precisava, desesperadamente, canalizar sua energia. Era uma euforia e uma felicidade tamanhas, que o mundo parecia caber em suas delicadas mãos. Ela não tinha medo de tomá-lo só para si e aproveitar tudo o que ele lhe oferecia. Só pensava na melhor maneira de alcançar seus objetivos sem receio e em dar a devida atenção às pessoas que amava.

Depois, lembrou-se de suas noites mal dormidas, em que milhares de pensamentos preenchiam sua cabeça. Questionava-se se sua vida estava realmente nos eixos ou se estava se enganando, se tudo não passava de uma grande e doce ilusão. Era um pessimismo eminente e que lhe fazia mal. Era como se todo o vigor que possuía anteriormente consumisse toda sua vitalidade e, de repente, transformava-se em uma pessoa apática.

O estranho é que depois de passar por esses momentos tão distintos sua sanidade era normalizada. Os dois extremos – satisfação e desprazer – apareciam para dar-lhe alguma percepção sobre sua vida. Era como se dois lados de sua personalidade emergissem para que o seu verdadeiro ‘eu’ e a sua singularidade fossem firmados. E era por esse motivo que estava ali, fitando o chão com uma expressão atordoada. Ela queria saber quem ela era, apenas. Gotas de suor começaram a brotar em sua testa e ao senti-las escorrendo pelo seu rosto dirigiu seu olhar ao homem. Ele a olhava com um misto de curiosidade e impaciência. Ainda esperava a resposta, mas não a pressionou.

Um choque de realidade percorreu todo o seu corpo e concluiu que nunca obteria sua resposta em uma sala que, apesar de aconchegante, provocava-lhe arrepios. O psicólogo olhou discretamente para o seu relógio de pulso e checou as horas. No mesmo instante, ela se lembrou do relógio pregado na parede da sala de espera. O tique-taque martelava em sua cabeça e podia ver os ponteiros se movendo, o tempo passando. Percebeu que a única maneira de se descobrir era não perdendo o seu precioso tempo.

Ela era a junção perfeita de todos os sentimentos e de todas as forças contrárias que constituíam o seu ser. Era preciso equilibrá-los; deixá-los em harmonia. Ela tinha que sair pelo mundo em busca de autoconhecimento. Ver, sentir e absorver tudo o que visse pela frente. Era preciso doar-se um pouco para receber o que realmente merecia. Era indispensável deixar o medo de se encontrar para trás. Levantou-se subitamente, compreensão espalhando-se por seu rosto. Saiu sem dizer uma palavra sequer e correu para a manhã ensolarada. Não desperdiçaria seu tempo. Não desperdiçaria nada.

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